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As mulheres que fazem a diferença na Perícia Criminal do Estado do Pará

Ser Perito Criminal é trabalhar a serviço da Justiça e, mediante análises técnico-científicas, ser capaz de fornecer provas materiais que colaboram na elucidação de crimes.

A rotina laboral desse profissional envolve o levantamento de vestígios em locais de crime; a realização de exames laboratoriais específicos; o contato com vítimas fatais ou não e seus respectivos familiares; as reconstituições de eventos criminosos, dentre outras atribuições que, frequentemente, estão ligadas a cenas fortes, chocantes e inusitadas.

Nesse sentido, muitos acreditam que essas atividades profissionais são desenvolvidas estritamente por homens, uma vez que a sociedade, de uma forma geral, mantém a concepção de que as mulheres possuem uma sensibilidade demasiada para enfrentar um trabalho dessa natureza.

Entretanto, a sensibilidade feminina, que garante atenção redobrada aos detalhes, parece ser o diferencial na hora das mulheres realizarem o trabalho pericial. No Centro de Perícias Científicas “Renato Chaves” (CPC RC), elas representam 45% do efetivo, entre Peritos Criminais e Médicos Legistas, e são unânimes em afirmar que o dinamismo e a falta de rotina na execução das atividades periciais são os principais fatores de atração à profissão que desempenham.

Trabalhar como perito criminal é fascinante e atraente, por que a cada dia você vivencia uma história diferente, você não sabe o que pode encontrar em local de perícia, principalmente em local de crime. Aprende mais, pois existem perícias que exigem além do seu conhecimento atual, fazendo com que você esteja em aperfeiçoamento contínuo.” Enfatiza Creusa Alice Dias, Perito Criminal do CPC RC que trabalha há onze anos no Local de Crime contra a Vida.

O Local de Crime contra a Vida é um setor do Centro de Perícias que, conforme sugere o nome, lida diretamente com demandas envolvendo cadáveres, o que pode parecer, à primeira vista, um ofício inapropriado para mulheres, pois é um trabalho árduo e mórbido, cercado de tabus e estereótipos descabidos.

Entretanto, importa sinalizar que hoje elas compõem 41% dos peritos de Local de Crime e já estão habituadas com as cenas brutais que encontram ao serem acionadas. Além disso, já não se surpreendem com as perplexidades das pessoas ao verem uma mulher executando essa função.

É curioso que a maioria das pessoas que ficam perplexas são também mulheres, que questionam muito sobre isso, sobre a nossa coragem de lidar com cadáveres. E quando nós explicamos como funciona o trabalho, elas passam a gostar e ficam admiradas. Já os homens ficam fascinados quando a gente chega em um local de crime. Mas sempre fomos respeitadas e o nosso trabalho não é menos importante e diferente do que o homem faz.” Conclui Creusa Alice, que também destaca que os próprios colegas de trabalho têm um cuidado a mais com elas quando há necessidade de deslocamento para a realização de perícias em locais de difícil acesso, por se tratarem de mulheres e, consequentemente, serem consideradas delicadas.

Apesar de ser uma área com boa participação de mulheres, vale frisar que a palavra Perito Criminal não tem mudança de gênero. Ou seja, não existe a definição Perita Criminal, o termo utilizado é a Perito Criminal.

CURIOSIDADEA mulher que se tornou primeira Médica Legista do Brasil

Nascida em Belém-PA, no ano de 1915, e formada pela Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará, Dra. Maria de Nazareth Salles Neves, mais conhecida como Dra. Nanete, ingressou, em 1943, como Médica Legista no então Instituto de Polícia Científica “Renato Chaves”, hoje Centro de Perícias Científicas “Renato Chaves”, tornando-se a primeira mulher médica legista do Brasil.

Dra. Nanete contribuiu com os seus conhecimentos para a medicina legal do Pará por 36 anos. Durante este período, recebeu inúmeras homenagens pelo seu zelo, honestidade, cooperação e por bons serviços realizados. Foi também, coordenadora do Serviço de Sexologia Forense, sendo a Estatística o último departamento a coordenar.

Além da função de médica legista, Dra. Nanete dedicava-se a ser professora de Língua Francesa, tendo lecionado em várias escolas do Estado, como o Colégio Estadual “Paes de Carvalho”, Colégio Moderno, Instituto de Educação Estadual do Pará e Colégio Gentil Bittencourt.

Com o passar dos anos, seu estado de saúde foi se agravando, tornando-se custoso, em alguns dias, o seu comparecimento ao Instituto. Ainda assim, às vésperas de se hospitalizar, já andando com dificuldades, Dra. Nanete compareceu para atualizar seu trabalho e orientar aquela que seria sua substituta, dando exemplo de amor e muita dedicação ao seu trabalho.

Em 1979, a Medicina Legal do Pará perdeu, aos 64 anos, a primeira mulher médica legista, que se dedicou até os seus últimos dias de vida a uma trabalho pouco explorado pelas mulheres da época, o qual amava e tinha muito orgulho de exercer. Seu corpo foi velado na sua segunda casa, como ela chamava o Instituto.

Relatos e histórias como essas que fazem das mulheres verdadeiras protagonistas da vida real, merecedoras do espaço e destaque que têm conquistado na sociedade