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Perícia de engenharia legal foi determinante para a conclusão da ponte União

Texto: Jackie Carrera

Fotos: Ascom CPCRC e Pedro Guerreiro


Na segunda reportagem da série sobre a nova ponte União, que integra a Alça Viária, o destaque é a celeridade que a perícia conseguiu efetuar na obra.

Quem acompanha as obras de reconstrução da nova ponte União, não imagina o quanto o trabalho pericial realizado, na época, pela equipe de engenharia do CPC Renato Chaves, foi determinante para este momento.


O laudo da perícia apontou que a causa do desabamento foi o impacto provocado pela embarcação.

No dia 6 de abril do ano passado, quando uma balsa carregada de rejeitos de dendê colidiu nos pilares da terceira ponte da Alça Viária, no km 8, a resposta do Estado foi rápida: Em dois dias, o laudo do Centro de Perícias Científicas foi divulgado.

“No primeiro dia fizemos a primeira perícia. Depois verificamos que estava alta a maré por isso havia a necessidade de fazer uma segunda perícia. No dia seguinte, com a maré baixa, já estávamos lá para detectar as características da ponte. Isso está bem explícito no laudo para que fosse analisada a questão estrutural.

“Caíram 268 metros de ponte e 2 pilares foram atingidos durante a colisão. Mas, sob efeito dominó, foram derrubados mais outros dois pilares, abrindo aquele vão enorme na parte central da ponte. O tabuleiro caiu (pista) em cima do comboio. No dia seguinte o empurrador afundou, ficando apenas exposta a balsa”, reitera o perito Orley Cruz. Os peritos são engenheiros civis e atuam a mais de 20 anos no CPC Renato Chaves.

José Alberto Sá é Pós Doutor pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e Orley Cruz, que é engenheiro civil e físico e com especialização em gestão da qualidade e gerenciamento de obras . Para ambos, trabalhar neste caso foi um desafio superado e bem sucedido. Nem tanto pelo fato do acidente ter ocorrido numa madrugada (quase sem testemunhas), mas principalmente pela dificuldade de acesso a pontos da ponte em que era necessário fotografar para fazer as análises. A qualidade da perícia dependia disso e o Estado ofereceu condições para que isso ocorresse. A Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros cederam operadores de drones para ajudar nos trabalhos.


Depois de fazer esses levantamentos, não houve dúvida: a ponte veio ao colapso decorrente ao impacto provocado pelo comboio (balsa e empurrador)”, explica o perito legal, José Alberto Sá.

“Isso foi muito importante para identificar o ponto de impacto do acidente, porque tivemos uma visão ampla de tudo, em diversos ângulos. Essa é a importância do drone pra construção civil e, a nível pericial, na identificação com mais precisão dos vestígios coletados”, disse o Pós Doutor.

Os peritos também ressaltam que, dependendo da dinâmica do acidente, existe uma situação de risco onde o perito não pode se aproximar tanto, o que dificulta o trabalho.


Orley Cruz explica que o trabalho auxiliado pelo drone deu mais rapidez e substituiu os andaimes.

“O drone vem para dar a rapidez que o trabalho exige. Sem ele teria que usar andaimes e o perito tinha que escalar a ponte. São 24 metros de altura. Levaria tempo também e devido a necessidade de dar uma resposta rápida e pelas condições que nos deram, conseguimos terminar tudo em tempo recorde” disse o outro perito, Orley Cruz.

Além disso, um outro laudo, o ambiental, foi elaborado pelo mesmo setor do CPC Renato Chaves. O perito e engenheiro químico, Rosywaldo Cantuária, analisou amostras para saber se houve algum dano ambiental no Rio Moju, hipótese que foi descartada.

“Houve a coleta da água do rio, também sobre o material na balsa e o combustível que vazou. Mas os resultados laboratoriais não apresentaram nenhuma incompatibilidade ou desconformidade com as normais ambientais no local”, afirmou Cantuária.

Após a divulgação do laudo, as empresas responsáveis pela embarcação foram notificadas, a Procuradoria-Geral do Estado entrou com uma Ação Civil Pública e o Estado foi indenizado.

“Com o trabalho de investigação da Polícia Civil e da perícia do Renato Chaves, conseguimos provar que colapso se deu em decorrência do impacto da balsa. Também conseguimos identificar os responsáveis, ou seja as empresas de navegação e proprietárias da carga que estava na balsa. Com base nisso, preparamos uma ação cautelar de bloqueio de bens das seis empresas envolvidas. Foi deferida uma liminar do bloqueio de R$ 180 milhões de todas as empresas envolvidas. E essa medida foi fundamental para que conseguíssemos R$ 129 milhões, pagos à vista, para nos ajudar a reconstruir a ponte”. Ricardo Sefer – Procurador-Geral do Estado.

Uma ponte mais resistente – Outra contribuição que a perícia deu ao caso foi detectar que o projeto original da ponte não levava em consideração a peculiaridade do local.

“Uma das constatações do laudo foi que o vão central da ponte era pequeno, apenas 70 metros de largura. A balsa tinha mais que isso. E isso é incompatível para aquele contexto ali. A ponte fica próximo de duas curvas do rio. Então existe muita correnteza (e em sentidos contrários) que faz com que a embarcação não atravesse a ponte alinhada, mas em diagonal. Por isso bateu em dois pilares, de um lado e do outro”. Orley Cruz, perito.

A perícia de engenharia legal recomenda que a estrutura seja mais resistente à ação mecânica. Durante a perícia, também foi constatado que não havia defensas (estruturas de construção civil, flutuantes ou permanentes, que ficam na base dos pilares para proteger a ponte de impactos).

O projeto de reconstrução da nova ponte leva em conta a segurança e resistência da estrutura. Agora, a estrutura terá dois vãos centrais, de 134 metros cada, quase o dobro da anterior. Outra medida que faz parte do novo projeto, é a existência de defensas, que foram projetadas para suportar grandes impactos.

“A perícia nos alerta a não repetir o mesmo erro. A aprender com a nossa história. Desde o ano passado, o governo está buscando valorizar esse trabalho”, lembrou Orley.

Reconhecimento – O episódio acabou deixando um legado para o Instituto de Criminalística do CPC Renato Chaves. O governo protagonizou a primeira homenagem com menção honrosa aos peritos do Estado e firmou compromisso em investir no setor de Engenharia Legal.

Um setor que possui profissionais de diversas áreas científicas, tais como as engenharias civil, mecânica, elétrica, ambiental, sanitária e de computação. Os trabalhos vão desde a perícia de obras de construção civil, como também a veículos, equipamentos tecnológicos, sistemas de software e área e/ou material ambiental.


Márcia Sá, coordenadora da Perícia de Engenharia, elogia a equipe: “é altamente qualificada”.

“Temos uma equipe qualificada, um pós doutor, dois doutores e 7 mestres. O restante é todo especialista. Tínhamos departamentos trabalhando muito misturado e improvisado, dividindo o mesmo espaço. Este ano, tivemos o nosso espaço todo reformado, cada gerência ganhou o seu espaço. Recebemos novos mobiliários e estão chegando novos equipamentos, como computadores e inclusive drones, pois foram ferramentas fundamentais na perícia da ponte. Estamos com novas perspectivas para a perícia no Pará”, disse a coordenadora Márcia Sá.